PREFÁCIO
Sonha com poder ilimitado, riquezas incalculáveis e multidões de admiradoras encantadas? Torne-se um ditador! Poder absoluto. Vamos lá, você quer isso mais do que tudo — só não sabe como conseguir. Mas eu sei! Existe um manual — uma tática usada pelos ditadores mais infames da história para chegar ao poder. E cada um deles é único à sua maneira.
Está preocupado com a constituição? A oposição desafia impunemente suas decisões e o critica na mídia? Está cansado de ver protestos e manifestações contra você? A solução está ao seu alcance — mude o sistema para algo mais conveniente. Ao contrário do que muitos pensam, tornar-se ditador não é tão difícil assim. Séculos antes disso, já haviam provado isso os governantes da Lídia, Sicília ou Magadha. E séculos depois, toda a orquestra de líderes da América Latina, África e também da Europa.
Nem todos têm a ambição de governar, então, para se tornar um líder, primeiro é preciso estar preparado. A maioria dos futuros ditadores veio de famílias que já estavam no poder e, por isso, absorveram desde cedo a ideia de que estavam destinados a governar. Por exemplo, Babur era descendente de Tamerlão e Gengis Khan, e Somoza era filho de latifundiários ricos e influentes. Suas ambições eram herdadas.
Mas não se preocupe! Você também pode se tornar um ditador, mesmo sem uma gota de sangue nobre. Samuel Doe, que chegou ao poder na Libéria ao eviscerar e esquartejar o presidente William Richard Tolbert em 1980, era apenas um sargento. François Duvalier, que aterrorizou o Haiti por quase duas décadas com sua milícia privada, era médico e jornalista de uma classe média bastante pobre. E Idi Amin, o «açougueiro» de Uganda, era filho de uma feiticeira da tribo Kakwa.
Mas há um pequeno detalhe: nesse caminho, muitas vezes é preciso tomar decisões desagradáveis. Embora ninguém tenha dito que governar seria fácil. Quer comprovar? Quando eu digo a palavra «tirano», o que vem à sua mente? Um governante cruel e despótico? Não, isso é simplista demais. A tirania é uma forma de governo para quem quer resultados.
Olhe para a história: a liberdade não é a norma. Gostamos de ser governados. Quando se vive tempos difíceis, tudo o que queremos é que alguém chegue e diga: «Só eu posso consertar tudo.» Os ditadores mais bem-sucedidos da história fazem exatamente isso — transformam suas sociedades de cima a baixo. Siga os passos deles, um por um — e você também pode conseguir.
Existe um manual do ditador. Se você quer ser um ditador, só precisa fazer algumas coisas. Só isso. Mas, antes de fazer qualquer coisa, você precisa se destacar da multidão e tomar o controle. É aqui que nossa história começa: sobre um fracassado, pintor de paisagens, que se tornou o mais poderoso e sanguinário vilão da Terra.
Capítulo I. TOME O PODER
LIÇÃO 1. SAIA DA MULTIDÃO
Aos vinte anos, Hitler era um fracassado — quase miserável — , sem amigos, um artista mal-sucedido. Como foi possível que esse homem acabasse com tanto poder em um país enorme, no coração da Europa, no século XX? Na verdade, é simples: se você quer governar, primeiro precisa acreditar que é capaz disso.
Então, como Adolf Hitler se tornou o Adolf Hitler? E que lições você pode tirar quando chegar ao poder? «Destaque-se da multidão» — essa frase simboliza a busca por individualidade, independência e libertação das restrições sociais. Ela destaca o desejo de se destacar, ser autêntico e não se submeter aos padrões ou expectativas da maioria. Quando alguém decide «sair da multidão», isso pode significar a recusa ao conformismo e a busca de um caminho único. É um apelo ao pensamento independente, à tomada de decisões próprias e à coragem de seguir suas convicções. É exatamente assim que começa todo ditador.
LIÇÃO 2. ACREDITA EM TI
Ditadores têm uma espécie de confiança maníaca em suas próprias habilidades — sem isso, eles não conseguiriam. Muitas vezes, veem a si mesmos como libertadores, convencidos de que somente eles podem salvar o mundo e torná-lo melhor. Em outras palavras, estão cegos — e, como você verá em breve, Hitler não foi o único a pensar assim.
Segundo a lenda norte-coreana, no momento do nascimento de Kim Jong-il, uma nova estrela brilhante iluminou o céu. Um arco-íris duplo apareceu, e o inverno se transformou em primavera. Saddam Hussein afirmava ter sido ungido por Alá para governar o Iraque eternamente, e contava histórias sobre como escapou da morte — como prova da misericórdia divina. Já o ditador François Duvalier dizia ser eterno, e que forças do vodu haviam despertado dentro dele.
Quem pode dizer que não é verdade? Mas onde nasce essa fé na própria sobrenaturalidade? Ano de 1918 — dezesseis anos antes de Hitler se tornar um ditador. Hitler afirmava ter encontrado essa fé no lugar mais inesperado: nas trincheiras ensanguentadas da Primeira Guerra Mundial. Certa vez, enquanto estava de guarda, ele ouviu uma voz estranha. A voz disse: «Vá». Pouco depois, vários de seus companheiros morreram no local, mas Hitler escapou sem um arranhão.
Mais tarde, perto do fim da guerra, Hitler e sua companhia foram atingidos por uma nuvem de gás mostarda. Quando acordou no hospital, um pastor lhe deu uma má notícia: a Primeira Guerra Mundial havia terminado, e a Alemanha havia se rendido. O choque foi tão grande que ele perdeu completamente a visão — um caso de cegueira histérica.
E então, tomado pelo desespero e cego, ele teve a impressão de ver claramente o futuro da sua nação. A partir desse momento, Hitler nunca mais duvidou de seu destino. Certa vez, ele disse: «Caminho com a confiança de um sonâmbulo em direção ao meu destino». Assim que tomou consciência de sua missão, passou a agir como se estivesse no piloto automático. Nada poderia desviá-lo desse objetivo. É exatamente esse tipo de confiança que qualquer futuro ditador precisa para se destacar — embora alguns usem outros métodos.
Um ditador em potencial geralmente é extremamente narcisista. Ele acredita sinceramente que é o centro do universo, e que tudo deve acontecer conforme a sua vontade. E é isso que o diferencia das pessoas comuns. Talvez isso não seja tão ruim assim. Mas, antes de descobrir seu verdadeiro propósito, você precisa superar alguns obstáculos. Ainda não tem seguidores. Para iniciar seu caminho rumo ao poder, é preciso algo que agite as almas das pessoas. E existe uma maneira infalível de fazer isso…
LIÇÃO 3. VENDA INDIGNAÇÃO
Num mundo ideal, a sociedade não deveria seguir uma mão firme, um tirano. Mas olhe ao redor as pessoas estão com raiva e procuram alguém para culpar. O talento dos ditadores está em entender a natureza do ressentimento (e ele já está se acumulando) e se apresentar como a solução para isso. Como uma forma de se vingar daqueles que despertam essa raiva em você. Quer chamar a atenção das pessoas? O roteiro é conhecido: mostre que os inimigos delas são os seus inimigos, e que você é quem vai destruí-los. Foi assim que esses caras fizeram.
Desde jovem, o futuro líder líbio Muammar Gaddafi fazia discursos inflamados contra a monarquia apoiada pelo Ocidente, e foi recebido como herói quando derrubou essa monarquia. O pai da Coreia do Norte, Kim Il-sung, ganhou fama ao lembrar seu povo de seu sofrimento — das humilhações sofridas nas mãos do exército japonês ocupante. E, quando Idi Amin chegou ao poder, ele canalizou a frustração do povo contra seu antigo colonizador — contra a Grã-Bretanha.
Após a Primeira Guerra Mundial, a Alemanha enfrentou hiperinflação e desemprego em massa. As pessoas entregavam maços de dinheiro para comprar um pão. E, entre os alemães frustrados, surge Adolf Hitler, então com 30 anos. Ele estava prestes a dar um passo importante em seu caminho rumo ao poder.
Munique, 1919. Adolf Hitler — um artista desempregado com algumas marcos no bolso e uma clara noção de quando tudo deu errado. E quem é o culpado? Hitler entra para a inteligência militar. Sua primeira missão: observar reuniões de um grupo de direita antissemita — o Partido dos Trabalhadores Alemães. Seus superiores achavam que Hitler ficaria quieto, anotando tudo e fazendo relatórios. Mas Hitler nunca foi bom em seguir ordens.
Anos de raiva e frustração vêm à tona. Hitler discursa contra uma conspiração judaica. Segundo ele, são os judeus que oprimem o orgulhoso povo alemão. Agora, antes de continuar, vamos falar sobre a teoria da conspiração que Hitler promovia. Ele dizia que os financistas de Wall Street e os comunistas de Moscou faziam parte de uma grande conspiração judaica. Parece absurdo, mas foi nisso que Hitler conseguiu fazer o povo alemão acreditar. Absurdas ou não, suas palavras tocavam fundo.
Depois de se juntar ao partido, Hitler aprimorou sua oratória. O conteúdo de seus discursos era, em grande parte, ódio — a ideia de que era necessário «purificar» a Alemanha dos judeus. Ele falava sobre como a Alemanha estava esmagada e humilhada, mas ainda tinha orgulho. A Alemanha deveria se reerguer.
Logo, Hitler se torna o líder do partido, que passa a ter um novo nome — Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, conhecido como NSDAP. Agora, Hitler tem uma plataforma para expressar sua revolta e um grupo fiel de seguidores, que absorve cada palavra sua. Muitos alemães percebiam: ele diz em voz alta aquilo que eles pensam em silêncio.
Por que isso funciona tão bem? Porque você permite que as pessoas sejam quem realmente são. A raiva coletiva une as pessoas — juntos é mais fácil. Eles têm solidariedade, têm um líder forte — ele os conduz contra uma minoria ou uma ameaça externa. Difícil acreditar que as pessoas culpem tão facilmente os outros por suas desgraças, não é? Mas não vamos fingir que os alemães dos anos 1920 eram piores do que nós somos hoje. Se você realmente sente que há um inimigo lá fora — você quer que seus políticos façam algo a respeito.
É muito fácil ficar sentado dizendo: «Eu jamais me deixaria encantar por um tirano como Hitler.» Mas você se deixaria, acredite. Só que, para alcançar o poder absoluto, você vai precisar de mais do que uma mensagem convincente. Você precisa vender essa mensagem — e este manual será o seu guia.
LIÇÃO 4. SEJA DO POVO
Como ditador, você se tornará o rosto da sua nação, e como apresentará esse rosto dependerá apenas de você. Neste estágio inicial, o manual oferece conselhos específicos sobre como criar sua imagem. Mostre ao povo que você é um deles. Precisa de exemplos? O ditador italiano Benito Mussolini orgulhava-se de se chamar de «homem do povo», frequentemente relembrando suas origens humildes: era filho de um ferreiro de uma pequena cidade. No início de seu governo, Idi Amin viajava por Uganda em um jipe aberto e era famoso por tocar acordeão com prazer em eventos públicos. Muammar Gaddafi demonstrava abertamente suas raízes beduínas: vestia roupas tribais e sempre morava em uma tenda, mesmo durante viagens.
Quem melhor para realizar os sonhos da nação do que aquele que sente o mesmo que seu povo, que sonha os mesmos sonhos? Uma característica marcante dos ditadores bem-sucedidos é que eles alcançam uma fusão completa com seu povo. Eles se colocam à frente e dizem: «Eu sou você, você é eu, nós somos um só organismo coletivo.» Hitler dizia isso com frequência em seus discursos. Agora que você se tornou um verdadeiro homem do povo, é hora de pensar também nos pequenos detalhes. Hitler não se vestia com luxo — ele sempre usava uniforme. Ele veio das trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Ele acreditava que a guerra moldava o homem. Isso ajudava, isso atraía as massas, isso garantia seu apoio. E quanto ao seu bigode? Algo o fez mudar sua aparência. Nas anotações do escritor Alexander Moritz Frey, há uma descrição de como Adolf Hitler adquiriu o característico bigode em «escovinha», que se tornou parte inseparável de sua imagem. Segundo Frey, durante a Primeira Guerra Mundial, o futuro führer, servindo no exército alemão, foi obrigado a cortar seu bigode prussiano espesso para que não atrapalhasse o uso da máscara de gás. Todos os soldados passaram por isso. Apenas militares de certas patentes tinham permissão para manter bigodes.
As anotações de Frey, que serviu ao lado de Hitler durante a guerra, foram incluídas em uma nova biografia do escritor. Seu autor, Stephan Ernsting, as encontrou em um arquivo de uma pequena cidade alemã chamada Marbach. Essas anotações nunca haviam sido publicadas antes. Outro historiador e estudioso da cultura, Ron Rosenbaum, afirma que Hitler não usava o bigode «escovinha» até o final de 1919, apesar das fotografias apresentadas como evidência. Antes disso, antes da Primeira Guerra, Hitler usava um estilo de bigode popular na época, chamado «bigode do Kaiser» (como o de Wilhelm II, imperador da Alemanha). Talvez Hitler não tenha pensado que isso o levaria à imortalidade, mas às vezes um futuro tirano simplesmente dá sorte.
No fim das contas, surgem os icônicos pequenos bigodes. Homens da pequena classe média por toda a Europa usavam esse estilo. O que Hitler estava mostrando? Eu sou igual a vocês! Agora que você consolidou seu vínculo com as pessoas comuns, sente que o encontro com o destino está próximo. Mas não se apresse. Se quiser entrar para a história, você precisa atingir um nível mais profundo — penetrar no subconsciente.
LIÇÃO 5. POPULARIZE SEU MOVIMENTO
O Partido Nazista crescia rapidamente, mas, além dele, existiam dezenas de partidos de direita, todos ávidos pelo poder. Como acontece com qualquer produto, para que o seu movimento se destacasse, era necessária uma excelente estratégia de marketing — e Hitler era um publicitário nato. Ele entendia o poder da imagem, compreendia a força do branding. Não basta ter apenas uma pessoa — são necessários símbolos que ajudem a incorporar a ideia. E, quando se trata de símbolos, é preciso reconhecer que eles têm um poder imenso. Não existe marca mais conhecida do que a suástica dentro de um círculo branco sobre um fundo vermelho. Provavelmente, é o símbolo mais poderoso que já existiu no planeta.
Mas, por mais convincente que seja um símbolo eficaz, a verdadeira força está nas pessoas — e elas precisam estar vestidas adequadamente. Hitler leu essa parte do manual e escolheu a camisa marrom. O importante era o próprio ato de receber o uniforme. A partir daí, você fazia parte de algo maior do que você mesmo. Isso era extremamente importante, profundamente significativo para a psique alemã. Esse uniforme representava dever, obediência e lealdade. Em outras palavras, quando você veste o uniforme, você é parte de um todo, está em um time. E quem não quer fazer parte de um time?
A obediência é, sem dúvida, um dos principais objetivos de todos os tiranos. E a razão pela qual, às vezes, eles têm sucesso é surpreendente: eles conseguem convencer seus seguidores de que isso não é submissão, mas sim unidade. O seu movimento crescente ganha força. Em breve, será impossível ignorá-lo. Hitler envolvia ativamente as pessoas nesse esplendor «luxuoso»: a imagem da suástica, pessoas marchando em uniformes, tochas nos comícios, discursos apaixonados — uma sucessão de tentações. «Se queremos estar juntos, se queremos participar dessa peça — então vamos nos juntar.»
Pode parecer estranho, mas o fato de se oferecer um bom espetáculo e discursos inflamados não significa que a chegada ao poder esteja próxima. É preciso ampliar sua escala — e, aí, decisões certas sobre pessoal se tornam essenciais.
LIÇÃO 6. CRIE UMA EQUIPE
Ninguém governa sozinho. Nem Idi Amin, nem Luís XIV, que disse: «O Estado sou eu.» Quando chegar a hora de tomar o poder, você vai precisar de uma equipe em quem possa confiar para proteger suas costas. Aqui estão as provas: o círculo próximo de colegas de Muammar Gaddafi o ajudou a dar um golpe contra o rei da Líbia e formar um governo. Ele governaria por quase 40 anos. Saddam Hussein contou com membros da sua família e pessoas da sua tribo — eles eram a base do seu apoio. Josef Stalin trouxe seus principais aliados para o Comitê Central. Isso lhe permitiu eliminar todos os rivais e estabelecer controle total.
Mas, quando você monta uma equipe com o objetivo principal de proteger seu poder, nem todo mundo vai ter lugar nela. Como qualquer líder, você precisa de pessoas com habilidades específicas para colocar suas ideias em prática: organizadores experientes — para administrar e expandir seu movimento com eficiência; militares implacáveis — para recrutar outros e executar suas ordens com precisão; assistentes confiáveis — para manter uma agenda apertada e registrar suas palavras para a posteridade. E também é necessário um verdadeiro herói — para impressionar os ricos. Uma revolução não é barata.
E, claro, você deve estar sempre atento a novos talentos. Mas, conforme o movimento cresce, alguns podem se sentir tentados a desafiar você. Lembre-se sempre do mais importante: acima de tudo, você precisa de pessoas cuja lealdade seja incondicional. E nisso, Hitler sempre pôde contar com esse cara, que se tornou seu seguidor mais fiel.
Joseph Goebbels adorava Hitler. Ele ouviu um discurso de Hitler num evento, ficou maravilhado e simplesmente disse: «Sim, ele é o escolhido.» Goebbels compreendia o poder dos meios de comunicação modernos, do cinema, do controle sobre eles. Ele entendia bem o poder da sugestão e da repetição. Goebbels tornou-se seu chefe de propaganda.
Claro, talento é ótimo, mas o que realmente importa é que seus apoiadores coloquem você em primeiro lugar — mesmo quando tudo estiver desmoronando. Goebbels foi fiel até o fim. No final de 1945, no bunker, ele e sua esposa envenenaram seus seis filhos e depois se mataram, porque não conseguiam imaginar o mundo sem Hitler. Isso é lealdade. Se você seguiu o manual para tomar o poder — definiu sua missão divina, usou a raiva do povo, criou uma imagem de homem comum e escolheu um símbolo memorável para seu movimento — agora você tem um círculo íntimo fiel. Mas, para dar o passo final rumo ao poder, você precisa da oportunidade de atirar. E, quando ela surgir — não perca.
LIÇÃO7. SAIBA QUANDO ATACAR
A pressão está sempre aumentando. Agora — é a sua hora. E você precisa ter paciência antes de atacar, a capacidade de jogar a longo prazo, de esperar. Confie em mim, e sua paciência será recompensada. Eu vou provar isso! Quando Saddam Hussein era vice-presidente do Iraque, ele passou 10 anos construindo um serviço secreto leal a ele — e só depois o usou para tomar o poder. Josef Stalin passou sete longos anos próximo a Lenin antes que o «pai da nova Rússia» o colocasse no comando. O líder de Uganda, Idi Amin, pacientemente recrutou membros de seu clã Kakwa para o exército, e depois eles o ajudaram a derrubar o presidente.
Hitler quase estragou tudo! Ele não aprendeu essa lição e foi apressado. Em 1923, onze anos antes de se tornar ditador, ocorreu o Putsch da Cervejaria. Hitler tentou um golpe insano e mal planejado. Basicamente, ele tentou levar uma multidão de nazistas às ruas de Munique, sequestrar líderes políticos da Baviera e forçá-los a ceder o poder. Nada era bem planejado: quando saem da cervejaria, são imediatamente recebidos a tiros pela polícia. É um erro colossal.
Hitler é condenado por traição e sentenciado a cinco anos na prisão de Landsberg. É dado como carta fora do baralho. A imprensa no mundo todo espera que Hitler desapareça da vida pública. E ele, de fato, some. Você não ouvirá mais falar dele. Ou será? Agora, ele está com um de seus mais leais aliados — Rudolf Hess. É Hess quem o convence a começar a escrever uma espécie de manifesto, e esse manifesto se torna um livro famoso. Nove meses depois, ele é libertado da prisão. Mas isso não muda sua sorte de imediato. As coisas só pioram.
Os turbulentos anos 1920 foram tempos de autoexpressão e oportunidades: o modo como as pessoas se vestiam, seu estilo de vida, as mulheres ficando mais livres. Foi um período incrível. A última coisa que um tirano iniciante precisa é de um povo feliz. Os anos 1920 foram calmos. Para Hitler, foi uma luta política. Mas, felizmente para ele, os bons tempos não duram para sempre. Em outubro de 1929, a bolsa de valores americana desmoronou, e os mercados ao redor do mundo a seguiram. Logo após o início da depressão, o partido nazista começou a ganhar força. Antes da Grande Depressão, não havia sinais de que eles se tornariam o partido dominante.
Julho de 1932 marcou o pico de popularidade do partido — cerca de 37% — e Hitler, é claro, tornou-se chanceler. O poder de Hitler, ao assumir o cargo, não era absoluto — ainda havia um presidente acima dele. Ele precisava aproveitar qualquer oportunidade para consolidar seu recém-conquistado poder. E nada ajuda mais do que uma boa crise.
O incêndio do Reichstag lhe deu o pretexto. O que pode ser pior do que ver o coração do seu governo queimar até o chão? Mesmo assim, quando Hitler aparece em público, ele não parece chocado, mas estranhamente empolgado. «Vocês estão testemunhando o início de uma nova era na história da Alemanha», diz ele a um repórter. Ele corre para a redação do jornal oficial do partido nazista e trabalha lá até o amanhecer. No dia seguinte, as manchetes culpam os comunistas pelo incêndio do Reichstag. Embora exista outra versão do que aconteceu: muitos acreditam que, na verdade, foram os próprios nazistas — a mando de Hitler — que causaram o incêndio para gerar simpatia pela sua causa.
Ignorando os boatos, Hitler exige que os ministros assinem um decreto de emergência preparado por ele, transformando a Alemanha em um estado policial sob controle nazista. Em seguida, ele o leva ao presidente Paul von Hindenburg. Von Hindenburg não consegue resistir à pressão de Hitler nem ao enorme caos. O decreto oficial dá a Hitler amplos poderes: prender opositores, dissolver todos os partidos políticos exceto o nazista e calar a imprensa.
Hitler procurava qualquer chance de acabar com as liberdades civis, esmagar a oposição — e ele a encontrou. Potenciais ditadores entendem instintivamente: quando as pessoas se sentem ameaçadas, elas procuram por um líder forte e autoritário — e apoiam esse tipo de figura. O palco está montado, e agora é apenas uma questão de tempo. Dezessete meses depois, Hindenburg morre, e Adolf Hitler se torna simultaneamente chanceler e presidente da Alemanha. Apenas 16 anos depois de ter percebido seu destino nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial. E isso é só o começo.
Aqueles que chegaram até aqui, parabéns: vocês criaram um movimento e tomaram o poder. Mas agora vem a má notícia: vocês não são mais um outsider. Vocês são os líderes. E isso significa que há um alvo gigante nas suas costas. Então, como consolidar o poder e manter os rivais sob controle? Continuando o caminho do ditador, deixemos que Saddam Hussein responda à pergunta que todo novo e vulnerável ditador se faz: como manter os lobos à distância?
Capítulo II. ESMAGUE SEUS RIVAIS
Então, como você viu: se seguir à risca o manual do ditador, poderá escapar do anonimato e conquistar o controle sobre sua nação. Acredite se quiser, mas tomar o poder é a parte mais fácil. Desde o primeiro dia, você será cercado por inimigos e rivais traiçoeiros. Eles tentarão — e provavelmente com força — acabar com seu regime rapidamente. Essa lição foi aprendida da forma mais dura por um dos líderes mais famosos da história. Caio Júlio César foi assassinado por antigos aliados menos de dois anos depois de se declarar ditador vitalício. Muito distante? Que tal Laurent-Désiré Kabila, do Congo — morto por um de seus próprios «filhos», um soldado que havia saído do controle. Há também Samuel Kanyon Doe, da Libéria — capturado por um grupo rival, foi torturado e assassinado diante das câmeras.
Mas você pode evitar esse destino, se conseguir colocar seus potenciais rivais em seu devido lugar. E ninguém fez isso melhor do que o «Açougueiro de Bagdá». Saddam Hussein governou o Iraque por 24 anos e nunca esqueceu o mantra que todo ditador deve adotar: «Mate ou será morto.» Saddam Hussein era uma fera: sua maneira de se manter no poder consistia em eliminar qualquer pessoa que ele suspeitasse — mesmo que vagamente — de ser um inimigo. Mas, antes de vermos como Saddam usou com maestria o manual para estar sempre um passo à frente de seus adversários, aqui vão alguns fatos sobre como ele chegou ao topo:
Fato 1: Saddam, ainda jovem, era um valentão. Desde muito cedo, ele acreditava no poder da força. Quando era jovem, carregava uma barra de metal. Ele a usava para ameaçar, intimidar os outros — e até torturar pequenos animais.
Fato 2: Aos 20 anos, Saddam entrou para o Partido Baath e se tornou um executor-chave. O Baath era um partido político fundado na Síria por Michel Aflaq, Salah ad-Din al-Bitar e Zaki al-Arsuzi em 1947. A ideologia do partido — o baathismo — era uma síntese do socialismo árabe e do pan-arabismo. O partido teve influência em diversos países árabes.
Em 1963, os baathistas conseguiram tomar o poder no Iraque através de um golpe militar, mas foram derrubados poucos meses depois. No mesmo ano, os baathistas assumiram o poder na Síria com a Revolução de 8 de Março, dando início a um longo período de governo do partido no país.
Saddam participou da tentativa de assassinato do líder iraquiano Abdel Karim Qasim em 1959, o que lhe rendeu muitos pontos dentro do Partido Baath. Após um golpe de Estado, o novo presidente passou a ser um primo de Saddam — Ahmed Hassan al-Bakr. Saddam foi nomeado vice-presidente, mas queria mais do que isso. Ficou como vice por quase dez anos — tempo suficiente para formar alianças e se aproximar de vários membros do governo.
Um dia, Saddam foi até Ahmed Hassan al-Bakr e disse: «Você está envelhecendo. Ouvi dizer que sua saúde não anda bem. Está na hora de se aposentar.» Ou, em outras palavras: você pode escolher entre morrer ou entregar o poder pacificamente. No dia seguinte, Ahmed Hassan al-Bakr anunciou sua renúncia. Agora que você sabe como Saddam chegou ao poder, vamos falar sobre como ele o manteve. E começamos pelo primeiro período crítico para qualquer tirano — o momento em que é preciso mostrar que há um novo xerife na cidade.
LIÇÃO 8. ESTABELECER DOMÍNIO
Ditaduras têm certos ritmos. Logo após tomarem o poder, sua posição é extremamente instável. Para se manter no poder, é preciso estar sempre alerta. É necessário garantir que qualquer possível rival esteja sob o mais absoluto controle e saiba exatamente qual é o seu lugar. Esses rivais incluirão alguns dos seus primeiros e mais próximos aliados — os que têm ambições perigosas. Qualquer sinal de fraqueza que você demonstrar será interpretado como um convite: «Sim, esse cara está vulnerável!». Esses amigos de tempos fáceis agora esperam o momento certo para derrubá-lo. Não lhes dê essa chance.
Esses caras não deram. Todos os generais da Grande Marcha de Mao estavam mortos poucos anos depois. Quase todos os que lutaram pela revolução em Cuba ao lado de Fidel Castro desapareceram em dois anos. E os primeiros camaradas de Josef Stalin na URSS? Sumiram rapidamente. Mas Saddam superou todos eles. Ele fez um movimento inesperado. Um dos amigos de Saddam contou-lhe que havia pessoas murmurando, insatisfeitas com a remoção de al-Bakr do poder. Então, Saddam convidou todos os membros do partido Baath para participarem de um congresso. Saddam apareceu com seu famoso charuto e declarou: «Nesta sala há pessoas que estão contra minha liderança». E então apareceu um homem chamado Mashhadi — um membro de alto escalão do partido Baath, altamente respeitado. Ele fez um discurso ensaiado previamente. Nesse discurso, Mashhadi confessava que estava tramando um golpe ou conspiração contra a liderança do Iraque, incluindo Saddam Hussein. A conspiração era totalmente inventada. Mashhadi havia sido torturado. Saddam levou a esposa e as filhas de Mashhadi para a prisão e disse a ele que tinha uma escolha: ou sentar e assistir enquanto os guardas estupravam e depois matavam sua esposa e filhas, ou confessar. Mashhadi escolheu a segunda opção.
Mashhadi começou a ler, um por um, os nomes dos membros do partido Baath que, segundo ele, também faziam parte da conspiração. Um agente da segurança, vestido à paisana, se aproximava imediatamente da pessoa nomeada e a retirava da sala. Alguns homens suplicavam: «Por favor, não, não!». Era uma cena estranha: lealdade fingida misturada com medo. Nos olhos de muitos daqueles homens era visível o pavor. Eles sabiam que seus nomes poderiam ser mencionados a qualquer momento. Fora da sala, os membros do partido conheciam seu destino. Mais de 20 pessoas foram condenadas à morte; o restante foi enviado para a prisão. Achavam que tinham tido sorte — até descobrirem que seriam eles próprios os executores dos camaradas.
Ato de um sádico? Talvez. Mas qualquer dúvida restante desapareceu: o novo líder do Iraque estava disposto a tudo para proteger seu poder. E, para o caso de alguém ainda não ter entendido, o vídeo dessa reunião foi enviado para o mundo inteiro — para todas as embaixadas do Iraque no exterior. A mensagem era clara: vejam o que acontece com quem trai o regime e seu líder. Este é o fim que os aguarda. Existe maneira melhor de começar uma nova era? Agora que seus rivais sabem do que você é capaz, não terão outra escolha senão se submeter. Mas como você terá certeza de que venceu?
LIÇÃO 9. ESTEJA EM TODA PARTE
Para sobreviver como tirano, você precisa de olhos, ouvidos e músculos em que possa confiar — em todos os lugares. Para prevenir qualquer ameaça ao seu poder, um ditador tem apenas um meio eficaz: observar, escondido nas sombras. É por isso que o melhor amigo de todo ditador é uma polícia secreta eficiente e impiedosa.
Durante o «Grande Terror» do final dos anos 1930, a polícia secreta de Josef Stalin — o NKVD — prendeu e executou milhões de supostos «inimigos do povo». Eles foram acusados de se opor a Stalin e ao seu regime. Em Uganda, Idi Amin garantia lealdade por meio do seu Bureau de Pesquisa do Estado. Seus membros incluíam pessoas de sua tribo, criminosos locais e mercenários estrangeiros. O ditador haitiano «Papa Doc» Duvalier ficou conhecido como «Tonton Macoute», ou «Bicho-Papão». Essa figura do folclore local sequestra e devora crianças desobedientes.
A ideia de criar uma polícia secreta surgiu no Iraque em 1964, quando Saddam ajudou a fundar o «Jihaz Haneen» — um serviço de segurança. Ao se tornar presidente, Saddam criou uma divisão especial — uma polícia secreta exclusiva. Ela era composta inteiramente por membros de sua família e pessoas próximas. Todos ligados por sangue e por um juramento de lealdade a Saddam Hussein. No Iraque dos anos 70, todos conheciam esses homens. Eles dirigiam carros parecidos, se vestiam de forma semelhante — até os bigodes eram iguais. Essa era toda a parte «secreta».
Mas não importa quão poderosa seja sua polícia secreta — você precisará de algo mais para mostrar que não há onde se esconder: uma rede confiável de informantes. No Iraque de Saddam, havia espionagem por toda parte! Todos vigiavam todos. O Partido Baath vigiava você em todos os lugares. Quando o manual diz «estar em todos os lugares», não se refere apenas ao interior das suas fronteiras. Quando dissidentes escapavam para outras partes do mundo, Saddam não hesitava em mostrar que podia alcançá-los onde quer que estivessem.
Isso nos leva ao ex-primeiro-ministro do Iraque, Abd ar-Razzaq al-Naif. Al-Naif era um político progressista e um antigo inimigo de Saddam. Quando Saddam e o Partido Baath tomaram o poder, Al-Naif foi forçado a fugir com sua família. Ele se mudou para o Reino Unido e passou a criticar o governo publicamente. Saddam começou a procurar maneiras de silenciar seu maior crítico. Alguns assassinos «amigáveis» fizeram uma visita a Al-Naif, mas acabaram acertando sua esposa. Ela sobreviveu e, eventualmente, os assassinos foram presos. Então Saddam enviou de Bagdá para Londres os melhores agentes de sua polícia secreta. Eles eram profissionais: usaram informantes, seguiram cada passo de Al-Naif e esperaram o momento certo para agir. Desta vez, não erraram.
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